quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Este é um momento de dor

Primeiro reconhecer que este é um momento de dor. Nem mais nem menos. Reconhecer que neste momento, sinto-me muito só neste lugar onde o sofrimento se abate apenas sobre mim.
A dor pode impelir-nos para nos afastarmos dos outros e de nós próprios, porque não nos reconhecemos, desfigurados pela dor e perdidos nela.
Reconhecer que preciso de mim, como minha melhor amiga. A seguir, aproximar-me de cuidados e de mimos; neste momento, toda uma caminhada para sair da dor.
Fazer uma pausa.
Reconhecer o lugar em que nos encontramos para dele poder sair.
E pedir ajuda quando precisamos, estender a mão. Também ajuda escrever sobre ela e pensar o que lhe diríamos se isto estivesse a acontecer com uma pessoa querida.
Mas de momento, este é só um momento de dor. E outros momentos se seguirão, com tempo e paciência. Escrever sobre o momento de dor poderá ajudar desde que acabemos com uma nota de esperança e de aceitação.
Tal como não somos nós quando temos fome, o mesmo importa dizer em relação à dor. É única, pessoal, mas pode ser sempre partilhada no seu impacto, porque todos passamos por ela e ela também nos ajuda a integrar outras formas de contemplar a vida e os outros que passam por nós, a rever as múltiplas páginas da gratidão, o livro também único que escreverei.
Imagem: By Caspar David Friedrich - KwEv_TMiJhn5kA at Google Cultural Institute, zoom level maximum, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=13266070
Maria João Enes

No Louvre


As esculturas incomodam-me. Apreciar uma ou duas é um deleite, muitas mais já algo se coça dentro de mim, fazendo-me desviar o olhar. Até com desdém, por vezes.
Representar partes de corpos, um busto, cabeça, rostos, de pessoas que não nos dizem nada. Quando a vida nos dói, um certo representar da vida soa a falso, plástico.
Sentei-me numa escada ao lado de uma representação com ninfa e um Deus e crianças brincando em torno das duas ou três figuras. As imagens pareciam estar entretidas naquela sua dinâmica, algo de rotina e de improviso de onde desponta o espontâneo. Pareciam dar-se ao olhar, à exposição do meu desejo de ver e observar tudo. Voyeur.
Toda a escultura jogava bem ao Olhem para mim, somos todos bonitos. 
Uma das figuras apanho-a a fitar-me de estuque na minha direção. Continuei a minha ignorância e desdém. Desvio o olhar e outras vidas se colocam ao meu lado a tirar fotografias, também na tentativa de se agarrarem à ilusão de que vão viver para sempre.
Perpassa-me o choque que tudo é vão e tal como eu, outra pessoa se sentará nas escadas, cansada. No mesmo jogo de flirt com a estátua.
O olhar de estuque incomoda-me. Pergunta-me: “Nós somos falsos, mas ficamos séculos e milénios aqui. E tu?”.
Guardo então o tempo, afinco e entrega ao esculpir uma figura. Meses, anos e naquele ritmo, aquela hora, dias de chuva e de sol. Guardo celebrar os outros que passam esta chuva e sol connosco, nos pequenos sorrisos ou olhares. Na relação entre a obra e o escultor, nasce uma ligação, uma presença em que um não existe sem o outro. Guardo esse molde também para a relação connosco. Mesmo se a pedra falhar e houver um ponto fraco, racha. Tentar embelezar ou partir de outro ponto mais atrás e seguro. Cuidemos de nós próprios com essa presença, principalmente quando mais arde, nessas horas mais modestas.

Maria João Enes

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Manual dos amantes tristes


Na encruzilhada deparamo-nos com dois rumos. Respira. Olha para dentro. Respira, de novo e longamente. Uma das possibilidades pode parecer mais fácil aos estímulos, mais breve. Outra mais longa, morosa e, por vezes, com nevoeiro, sem clara imagem do destino.
A satisfação de coisas vãs é mais prazerosa, mas, na realidade, talvez seja em nós próprios que o verdadeiro prazer resida.
Dentro de ti, as respostas não assomam à vista. Respira uma e duas vezes. O assumir de limites, do que de mais verdadeiro encontrares em ti.  Leve o tempo que levar. De noite, quando deitares a cabeça na almofada, tenta desenhar o que encontrares para veres o verdadeiro caminho, em ti. Depois de o veres na folha, espera que as tuas necessidades e desejos possam encontrar o seu meio de chegar à tua vida e aí se conservar.
((publicado originalmente em https://milrazoes.blogs.sapo.pt)

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Flores de cerejeira

Primavera

Debaixo de uma cerejeira
tudo é servido
decorado com flores

Flores de cerejeira no céu escuro
E entre elas a melancolia
quase a florir.

Matsuo Basho

O coração humano pede muitas coisas. Pede a rotina para ter controlo sobre as coisas e confiança para melhor habitar o tempo. Por entre a ramagem dos dias, os sonhos aguardam tímidos. Aqui e ali um raio de sol atravessa as folhas verdes e castanhas. O coração sequioso de esperança, quando as nuvens se acinzentam de chuva, interroga-se sobre o subtil mistério do viver. Pede instantes de alegria para suportar as nuvens de chuva.
Por vezes, o coração pede janelas para arejar e deixar entrar a plenitude do viver na sua efemeridade.
Ao resgatar a vulnerabilidade, abraçar a fraqueza, o quão tudo dói ou se torna demasiado, esquecemos de nos focar no momento. Os sentidos permitem isso, regar melhor as plantas para crescerem fortes. Estender o corpo a notas quentes, como a voz de quem gostamos dizer que nos ama, o frescor da água nos pés ao ritmo das ondas, o som dos passarinhos na lonjura. Este voltar a luz ao que brilha de mais pequeno, à verdade da nossa fisicalidade, permite um encontro connosco no agora e perante tudo o que nos possa assaltar, a certeza do vaivém das ondas. Neste ver o que é invisível, a esperança floresce, ancorada no viver como se estivéssemos enamorados.
No amor, o coração humano regala-se estando em aberto consigo próprio e ao outro. Se entra chuva e vento, granizo, entram também sorrisos e mimos, carinho de toda a espécie pelo espanto que é o encontro com o outro. Como quando banhamos os pés no mar, espantados face à sua beleza e intensidade, felizes por existir.

Maria João Enes

quinta-feira, 14 de março de 2019

Da simplicidade


“Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe”
Pedro Homem de Mello


Um dia, chegando a casa, senti que estava pela primeira vez a entrar num mundo novo. Mesmo que já lá morasse há um ano, aquele espaço não seria pisado por ele e tudo bem, não vinha nenhum mal ao mundo. Como se me encontrasse no agora, com esta nova pessoa que eu sou. Uma paz que assoma por dentro banhando as paredes e lentamente preenchendo até transbordar.
Como respirar quando tudo arde e pesa o ar cá fora?
Séneca, na sua ideia de viver de modo desapegado do prazer e sem medo da dor, não seria a chave do mistério. Há um conforto que nos transmite segurança, confiança, pontos de referências no que é familiar e rotineiro como o primeiro café da manhã.
Andamos na vida por vezes mais perdidos em rotinas e nisto um dos corrimãos desaparece e caímos. Com poff!! e tudo.
Infinitamente rápido é o movimento do tempo, como se vê mais claramente quando se olha para trás. Pois quando estamos atentos ao presente, não o percebemos, tão suave é a passagem do tempo ao ir pelo dia afora.
A linguagem da verdade é simples. Quando nesse encontro mais silencioso nos deparamos a um espelho que não se parte ou distorce, aí aquietemos para ouvir esse ribeiro que murmura há já muito tempo: gosta muito de ti.
 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ruge

“Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
...
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.”
Alberto Caeiro

Um incómodo grande, a falta de barulho. Nem que seja o do rádio ou da televisão. Um aborrecimento ter de nos ouvir, o que por aqui ecoa na tubagem, nas cavernas.
Reparei que fico bastante cheia de mim ao fim de uma viagem de autocarro de 4 horas. Chego ao pé das pessoas e toda eu só quero falar. Expulsar o demónio. Quando não consigo adormecer, ler tem sido um modo de me distrair. Fico pensando se esta parte da canalização interna não range como um cuco à espera de ser notada, se não quer ser ardentemente vista. Mas traz aquele incómodo das paixões, invejas, ciúmes, as fraquezas da gula e do desejo. Traz o ressentimento e o ódio, a competição e a agressividade. A par disso muita fome, várias.

Tenho lido “De olhos fixos no sol” do Irvin Yalom que fala sobre a morte, a construção de significado, o isolamento face ao nosso derradeiro. Conta também o face a face com aquela questão que nos tira o sossego, o do passado já não voltar. Dei conta que ele partilha o momento em que vê o pai ao telefone a receber a notícia que o seu pai morreu. Isso remeteu-me também para a minha história, tal e qual, tirado a papel químico. Vi o meu pai a ir ao telefone, ouvi um som diferente, a mãe passa a correr atrás dele, ambos em direção ao quarto. O som diferente não se altera, agudiza e fica num som permanente.
Eu dirijo-me ainda mais ao meu quarto (se calhar já lá me encontrava), por mais curiosidade que tivesse apercebo-me rapidamente que não ia mesmo querer saber o que causava tamanha desfiguração ao meu pai, tive medo.
Que mais futuro me fará fugir para o meu quarto? O medo maior, penso, é o terror conhecido, não o que há de vir ou o desconhecido, desse não tenho sequer imagem, cores ou sons. Yalom recomenda um exercício, olhar para o passado ano e perguntar-se: estaria disposto a repeti-lo tal e qual? Se notar arrependimentos, algo que não quer que se repita, então, tratar de remover ou mudar isso. Eu gostei deste exercício.
Aconselho o livro, mas com leitura reconfortante, por exemplo, Tolentino Mendonça.

(publicado originalmente no blog Milrazoes...)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Da solidariedade

“Ognuno sta solo sul cuor della terra
trafitto da un raggio di sole;
ed è subito sera.”
(Todos estamos sós no coração da terra
trespassado por um raio de sol;
e de repente anoitece.)
Salvatore Quasimodo

Compaixão pelos oprimidos e vulneráveis pode ser vista por vários ângulos: eu não sei como algumas pessoas se amam a si próprias, mas se forem sadomasoquistas, se calhar, passo à frente.
Durante a recessão económica, a situação de vulnerabilidade de países, famílias e empresas vestia palavras como PIGS, culpabilização das vítimas e da necessidade de empoderar e empreender. Nota-se mesmo que a língua portuguesa tem dificuldades com “empoderar”, tão feia que é a palavra, postiça.
Atualmente, quando penso nesses tempos recentes, cheira-me a cinzas, de ressentimento, de rejeição e de não pertença, falta de confiança e do muito que se perdeu. Da diferença entre os que ficaram, os que partiram e com o que podemos contar agora, olhando pela nossa janela. Erosão de valores, de vidas e de esperança. Ouvimos falar que as sociedades são líquidas e voláteis, do momento. Espero que daquelas que pondo no congelador com um pauzinho, dê para comer como gelado. Gosto muito.
Nussbaum escreveu sobre a inteligência da compaixão. Ela refere os três tipos de julgamento emocional que afetam o nosso modo de pensar perante uma situação de apelo à solidariedade. Refere o julgamento pela dimensão da tragédia, sinto-me mais solidária se a injustiça do outro é séria e não algo trivial; o julgamento por não merecer, ou seja, a pessoa não teve controlo em nada da injustiça em que se encontra; e o tipo de julgamento eudemónico (que vem do grego e significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom génio”, traduzido como felicidade ou bem-estar). Neste tipo de julgamento eudemónico, a pessoa a quem se destina o ato de solidariedade é parte integrante do meu esquema de objetivos, projetos e valores pessoais, um fim último pelo qual o Bem existe.
Este último é relevante pois, segundo a autora, vamos estar mais inclinados a ver o outro mais parecido connosco e só nos interessarmos mais por essa razão, pela probabilidade de algo similar nos acontecer.
Quando estamos mais em baixo, cuidar de nós passa por estarmos próximos de pessoas que são como casa para nós e, na ausência delas, sentir o bater do coração e respirar, como se estivéssemos mais próximos do verdadeiro coração do mundo. 
Em 20 de Dezembro, a solidariedade tem a sua celebração internacional. Esta preconiza, muitas vezes, a intervenção em situações de urgência e de preservação da paz social.
Por mim, atendendo à lógica de poder subjacente à narrativa da solidariedade, pensando em duas pessoas em diferentes posições de existir num dado contexto, penso que seria interessante um contacto de proximidade e de respeitar o outro na liberdade da sua decisão, como autor da sua própria vida. O contacto com o diferente traz sempre novidade e isso permite evoluir, como indivíduos e como grupo.

Referências:
Nussbaum, M. C. (2001). Upheavals of thought: The intelligence of emotions. Cambridge: Cambridge University Press
Imagem retirada aqui http://www.vcm.org.in/blog/seeing-the-sun-in-the-night/

publicado originalmente no blog Mil Razões