quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Da solidariedade

“Ognuno sta solo sul cuor della terra
trafitto da un raggio di sole;
ed è subito sera.”
(Todos estamos sós no coração da terra
trespassado por um raio de sol;
e de repente anoitece.)
Salvatore Quasimodo

Compaixão pelos oprimidos e vulneráveis pode ser vista por vários ângulos: eu não sei como algumas pessoas se amam a si próprias, mas se forem sadomasoquistas, se calhar, passo à frente.
Durante a recessão económica, a situação de vulnerabilidade de países, famílias e empresas vestia palavras como PIGS, culpabilização das vítimas e da necessidade de empoderar e empreender. Nota-se mesmo que a língua portuguesa tem dificuldades com “empoderar”, tão feia que é a palavra, postiça.
Atualmente, quando penso nesses tempos recentes, cheira-me a cinzas, de ressentimento, de rejeição e de não pertença, falta de confiança e do muito que se perdeu. Da diferença entre os que ficaram, os que partiram e com o que podemos contar agora, olhando pela nossa janela. Erosão de valores, de vidas e de esperança. Ouvimos falar que as sociedades são líquidas e voláteis, do momento. Espero que daquelas que pondo no congelador com um pauzinho, dê para comer como gelado. Gosto muito.
Nussbaum escreveu sobre a inteligência da compaixão. Ela refere os três tipos de julgamento emocional que afetam o nosso modo de pensar perante uma situação de apelo à solidariedade. Refere o julgamento pela dimensão da tragédia, sinto-me mais solidária se a injustiça do outro é séria e não algo trivial; o julgamento por não merecer, ou seja, a pessoa não teve controlo em nada da injustiça em que se encontra; e o tipo de julgamento eudemónico (que vem do grego e significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom génio”, traduzido como felicidade ou bem-estar). Neste tipo de julgamento eudemónico, a pessoa a quem se destina o ato de solidariedade é parte integrante do meu esquema de objetivos, projetos e valores pessoais, um fim último pelo qual o Bem existe.
Este último é relevante pois, segundo a autora, vamos estar mais inclinados a ver o outro mais parecido connosco e só nos interessarmos mais por essa razão, pela probabilidade de algo similar nos acontecer.
Quando estamos mais em baixo, cuidar de nós passa por estarmos próximos de pessoas que são como casa para nós e, na ausência delas, sentir o bater do coração e respirar, como se estivéssemos mais próximos do verdadeiro coração do mundo. 
Em 20 de Dezembro, a solidariedade tem a sua celebração internacional. Esta preconiza, muitas vezes, a intervenção em situações de urgência e de preservação da paz social.
Por mim, atendendo à lógica de poder subjacente à narrativa da solidariedade, pensando em duas pessoas em diferentes posições de existir num dado contexto, penso que seria interessante um contacto de proximidade e de respeitar o outro na liberdade da sua decisão, como autor da sua própria vida. O contacto com o diferente traz sempre novidade e isso permite evoluir, como indivíduos e como grupo.

Referências:
Nussbaum, M. C. (2001). Upheavals of thought: The intelligence of emotions. Cambridge: Cambridge University Press
Imagem retirada aqui http://www.vcm.org.in/blog/seeing-the-sun-in-the-night/

publicado originalmente no blog Mil Razões

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

No intervalo da vida




“Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...”
Fernando Pessoa

Sem bluff, ver logo a pessoa como é. Através dos gestos e palavras. Talvez mais do que faz e, se calhar, nem tanto como o faz. Talvez o que não faça e, nesse instante, o silêncio que estilhaça. Ver uma serenidade ou a indecisão que toma conta desse estar.
Uma terra que se sente revolvida à espera de ser cultivada. Os frutos e as plantas. Tomilhos e flores de borragem.
Contar contigo porque me dizes o que pensas a cada momento, ver essa liberdade, senti-la como partilhada comigo e podendo eu também respirar desse teu estar de cabelos soltos. Permitir-me deixar ir contigo.
Perguntar como será ser e estar assim de um modo simples, directo e quase desarmante, ser o que se é e como se sente.
Por vezes, atento sobre as amarras de uma invisível embarcação, como se se tratasse de um “navio de espelhos / não navega, cavalga” do Cesariny. E, nesse navio de espelhos, deambulamos por entre os fios de ouro envoltos em brumas e névoas ou quando o sol aparece, pelo ar que transpira das janelas que não conhecíamos encerradas, do lado de dentro.
Abrir os meus olhos ao outro e, nesse encontro, exalar uma mesma música que soa, de mim para ti. Chegando mesmo ao outro lado.

publicado originalmente no blog Mil razões...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Querido capitão

“Não vou procurar quem espero
Se o que eu quero é navegar
Pelo tamanho das ondas… Volto a partir em paz.”
Ornatos Violeta

Espero que o levante sopre quente e sereno nessa tua viagem. Decidiste pegar nas coisas e largar, mudar de ares. Que tinhas de ir, sentias ganas de sair. Na volta, é o mais simples. Começar novas pessoas e hábitos. Mesmo que depois tudo fique igual, temos a sensação de que algo se mexe, que não fica igual, não é verdade?
Na volta, um dia fitas o horizonte e pensas como estás no mesmo ponto. Como é que, a dada altura, mudar era mais simples que ficar. Até, sinceramente, uma parte de ti já tinha pegado nas malas e partido. A coragem veio depois com a crescente sensação de que dia-a-dia já não havia ali mais amor para ti e que saías da mesma forma que entraste. Pelo teu próprio pé.
Um dia o horizonte fita-te e responde se o desafio maior não será ficar. Perto do bater do teu coração, partindo dentro de ti.
Um dia contar-me-ás que mundos e peles cruzaste e quem te deixou a pele tisnada pelo sol e pelo sal. Até lá, encontras-me por aqui.
Boas marés!

originalmente publicado no blog Mil razões

Querida Maria

“Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
a luz, a glória e o brilho do teu ser.
Amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência.
És um rosto de nojo e negação.
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”
Sophia de Mello Breyner

Espero que estejas bem. Sei que da última vez que te vi estavas um pouco fugidia e distante, parecia que me evitavas ou que não te sentias bem ao pé de mim. Achei-te com o cabelo em desalinho, olhar a vagar no fragor do horizonte, por dentro.
Acho que me disseste que tinhas ficado desiludida com alguém importante. Que essa falta estava marcada em ti, como se falássemos do recorte a tracejado das vítimas de séries de crime. Devia ser mesmo importante esse alguém, nunca mais disseste palavra sobre ele.
As marcas do que já passou ainda doem? Como passas os teus dias?
Ajuda partilhar com quem escute as lágrimas do sentimento ressequido e os gritos, sem interromper. Acho que a dor não se compraz com anúncios de dez em dez minutos, ainda que tenhamos de esperar, por vezes, por quem nos ouve com muito colo.
E a zanga Maria, o que é feito dela? Sei da tristeza que fica um tempo, ali sem nada, a hipnotizar-te. A rejeição também mas e a zanga? Ah sei, é fazer exercício físico, focar no trabalho e carregar no acelerador do carro. Mas sabes Maria, se vires da zanga manda-lhe um beijinho, gosto de a ver, mesmo quando ela é incómoda porque ela pá, ela sabe de coisas que nem eu nem tu desconfiamos.
Bem, esta carta já vai confusa mas era para te dizer que se precisares de alguma coisa diz, nem que seja ir tomar café ou ir para a fila das finanças.
Queria dizer-te que és importante para mim. Para tudo o resto, respiremos.

Maria João Enes

originalmente publicado no blog Mil razões

A mão

A última vez em que me deparei com uma beleza cujo impacto me fez parar e ver, foi num museu. O museu, esse espaço onde ninguém lá mora mas em que guardamos a superação de um qualquer viver humano, permite-me passear pelos temas, cores e texturas de modo lúdico, sendo as regras do jogo: “Vê lá se me prendes.”, ou “O que tens tu para me mostrar hoje?”.
À minha espera, encontrava-se a “Pietà”, de Michelangelo – réplica – numa exposição de Madonnas (iconografia da Virgem Maria como Mãe), numa sala mais ou menos escura, como se o visitante mais incauto levasse o seu tempo a chegar lá e pudesse ser também surpreendido pela sua presença, numa atmosfera mais intimista. Imensa gente, ler a legenda, fazer tempo e sentar. Acerquei-me do banco em frente, quase a pedir desculpa aos séculos por só agora ter chegado ao pé dela e aguardar. Pelo quê, não sabia bem e deixei-me ficar.

As primeiras impressões, dizem-nos, levam cerca de 7 segundos a aparecerem, se nos atrai ou se nos afasta. Gostei logo da imensidão da estátua, a sua alvura quase intocável e a sua dimensão que dizia “Eu vim cá para me mostrar!”, sem pudor nem modéstia. E o que me mostrava ela? O que me tocava? No toque, as mãos que percorrem e experimentam são muito importantes. No passe-bem e nas palmadas nas costas. Estas mãos traziam o seu filho, uma mão que o prendia para sempre. A outra mão que se estendia para o céu ou para nós, para um qualquer benemérito que pudesse deixar lá qualquer coisa, essa outra mão pedia-me algo. Nem palavras, nem som, nem nada podia ser dado a essa mão a não ser toda a atenção.
A beleza nesta obra surgiu-me do impacto dos seus contrastes: uma estátua disforme e o desespero de uma figura materna, pequena para tão imensa injustiça; a sua fisicalidade imponente para o silêncio tão íntimo que o grito mudo nos pede, ali a ecoar para sempre. A surpresa do encontro naquela hora tardia trouxe-me o mais belo e o mais terrível. Conversarmos com o nosso belo e com o nosso terrível leva tempo e muitas pautas até se harmonizarem os temperos. Já só queria ficar ali, a conversar com a estátua. Agora, sabia-o bem, iriamos ser amigas e confidentes para sempre.

Podemos encontrar a beleza em pequenas e grandes imagens e, naquele momento, a exposição ou prostração da sua vulnerabilidade foi de uma dádiva infinda. Na obra que para mim se tornou bela, senti algo próximo do que aquela mão afinal me pedia e eu nem pressentia o que tinha para dar: um caminho para a redenção.

Originalmente publicado no blog Mil razões, Janeiro de 2018