sexta-feira, 24 de novembro de 2017

in media res


Todos os dias começam abrindo os olhos. Um processo mais ou menos atormentado conforme os dias, a luz, o tempo, as horas.
Por vezes, dar um passo implica caminhar sobre os destroços e com eles, junto ao precipício da beleza da finitude. Outras vezes, voar, num ápice, um salto em voo e, magicamente, esperar não cair.
Começar, pela milésima vez. Falhar mais. Falhar cada vez melhor dizia o Becas. Lembrar tudo o que começamos já e ainda assim, seguir em confiança. Neste caminho, precisamos de companhia, parceiros de dança. 
Queres dançar comigo? Podemos dançar só esta música, dançar as próximas horas ou ate cair na vertigem, numa espiral.
Os meus colegas falam que perante a perda, uns irão criar coisas (instrumental grievers), pensá-las cognitivamente, resolver problemas, embarcar em novas actividades. Como criar um blog
Ir pelo físico, espaço e respirar.
Outros serão mais intuitivos (intuitive grievers), falarão passo a passo das nuances da sua perda. Procurarão ouvidos e mãos que amparem esses momentos. Like tears in the rain para citar de cabeça, um runner a contemplar o fim da corrida.
De súbito, a dança que se quer milonga passa a uma valsa lenta sem que nada se tenha passado e, no entanto, o primeiro passo foi criar.
Uma semente para crescer, toma tudo de nós, melhor será levar na mala de porão, música e embalo. Um escritor que dizia ter um amigo engenheiro que era um ser muito lógico e racional. Que se apaixonou por uma brasileira e foi a melhor que lhe aconteceu. Que o brasil se foi e que depois disso só conseguia ler poesia, só isso mitigava o que ardia.
Começar, criar leva-nos de mão dada pelo desejo.

O desejo, esse eterno amante.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

La Lira de Caliope

de Don Esteban Sarmiento dedicado ao Sr. Melchor Portocarrero, Vice-rey de Perú, 1703 

Es una locura odiar a todas las rosas porque una te pinchó. 
Vizconde de Saint Exupery

La ausencia es un camino perdido en las tinieblas
que igual que el amor no lleva a ninguna parte.
El hueco de la voz se asimila al del humo
y vuela forzado en un éxodo de lágrimas.
La soledad se desploma sobre el mediodía
y aplasta cualquier arquitectura en el aire.
El recuerdo se inunda con soles de postales,
con estrellas falsas y con lunas melancólicas.
La memoria se llena de sierpes venenosas,
los párpados se hinchan de dolor como ababoles
 y la sangre se infecta de tristeza y nostalgias.
 Tu voz como un rescoldo, como un eco cansado
 más allá de metáforas y de metafísicas.
La lágrima dialoga entre el agua y el fuego
con olas repetidas como remordimientos
Si miras al cielo verás caer plumas de ángel.
Si todos los versos hieren, el último mata
 rápido como pólvora, raudo como un calambre.
La vida es un teatro de traición y cenizas:
un mar de látigos que no reniega de su furia.
No olvides nunca que somos lo que recordamos.
Los siglos pasados son las semillas del futuro:
versos viejos como banderas desflecadas,
virutas de vientos, sílabas y palabras.

(retirado de http://jricart.blogspot.pt/)