Todos os dias começam abrindo os olhos. Um processo mais ou menos
atormentado conforme os dias, a luz, o tempo, as horas.
Por vezes, dar um passo implica caminhar sobre os destroços e com eles,
junto ao precipício da beleza da finitude. Outras vezes, voar, num ápice, um
salto em voo e, magicamente, esperar não cair.
Começar, pela milésima vez. Falhar mais. Falhar cada vez melhor dizia o
Becas. Lembrar tudo o que começamos já e ainda assim, seguir em confiança.
Neste caminho, precisamos de companhia, parceiros de dança.
Queres dançar comigo? Podemos dançar só esta música, dançar as próximas
horas ou ate cair na vertigem, numa espiral.
Os meus colegas falam que perante a perda, uns irão criar coisas (instrumental grievers), pensá-las
cognitivamente, resolver problemas, embarcar em novas actividades. Como
criar um blog.
Ir pelo físico, espaço e respirar.
Outros serão mais intuitivos (intuitive
grievers), falarão passo a passo das nuances
da sua perda. Procurarão ouvidos e mãos que amparem esses momentos. Like tears in the rain para citar de cabeça,
um runner a contemplar o fim da
corrida.
De súbito, a dança que se quer milonga passa a uma valsa lenta sem que nada
se tenha passado e, no entanto, o primeiro passo foi criar.
Uma semente para crescer, toma tudo de nós, melhor será levar na mala de
porão, música e embalo. Um escritor que dizia ter um amigo engenheiro que era
um ser muito lógico e racional. Que se apaixonou por uma brasileira e foi a
melhor que lhe aconteceu. Que o brasil se foi e que depois disso só conseguia
ler poesia, só isso mitigava o que ardia.
Começar, criar leva-nos de mão dada pelo desejo.
O desejo, esse eterno amante.
