“Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
...
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.”
Alberto Caeiro
Um
incómodo grande, a falta de barulho. Nem que seja o do rádio ou da
televisão. Um aborrecimento ter de nos ouvir, o que por aqui ecoa na
tubagem, nas cavernas.
Reparei
que fico bastante cheia de mim ao fim de uma viagem de autocarro de 4
horas. Chego ao pé das pessoas e toda eu só quero falar. Expulsar o
demónio. Quando não consigo adormecer, ler tem sido um modo de me
distrair. Fico pensando se esta parte da canalização interna não range
como um cuco à espera de ser notada, se não quer ser ardentemente vista.
Mas traz aquele incómodo das paixões, invejas, ciúmes, as fraquezas da
gula e do desejo. Traz o ressentimento e o ódio, a competição e a
agressividade. A par disso muita fome, várias.
Tenho
lido “De olhos fixos no sol” do Irvin Yalom que fala sobre a morte, a
construção de significado, o isolamento face ao nosso derradeiro. Conta
também o face a face com aquela questão que nos tira o sossego, o do
passado já não voltar. Dei conta que ele partilha o momento em que vê o
pai ao telefone a receber a notícia que o seu pai morreu. Isso
remeteu-me também para a minha história, tal e qual, tirado a papel
químico. Vi o meu pai a ir ao telefone, ouvi um som diferente, a mãe
passa a correr atrás dele, ambos em direção ao quarto. O som diferente
não se altera, agudiza e fica num som permanente.
Eu
dirijo-me ainda mais ao meu quarto (se calhar já lá me encontrava), por
mais curiosidade que tivesse apercebo-me rapidamente que não ia mesmo
querer saber o que causava tamanha desfiguração ao meu pai, tive medo.
Que
mais futuro me fará fugir para o meu quarto? O medo maior, penso, é o
terror conhecido, não o que há de vir ou o desconhecido, desse não tenho
sequer imagem, cores ou sons. Yalom recomenda um exercício, olhar para o
passado ano e perguntar-se: estaria disposto a repeti-lo tal e qual? Se
notar arrependimentos, algo que não quer que se repita, então, tratar
de remover ou mudar isso. Eu gostei deste exercício.
Aconselho o livro, mas com leitura reconfortante, por exemplo, Tolentino Mendonça.
