Primeiro reconhecer que este é um momento de dor. Nem mais nem menos. Reconhecer que neste momento, sinto-me muito só neste lugar onde o sofrimento se abate apenas sobre mim.
A dor pode impelir-nos para nos afastarmos dos outros e de nós próprios, porque não nos reconhecemos, desfigurados pela dor e perdidos nela.
Reconhecer que preciso de mim, como minha melhor amiga. A seguir, aproximar-me de cuidados e de mimos; neste momento, toda uma caminhada para sair da dor.
Fazer uma pausa.
Reconhecer o lugar em que nos encontramos para dele poder sair.
E pedir ajuda quando precisamos, estender a mão. Também ajuda escrever sobre ela e pensar o que lhe diríamos se isto estivesse a acontecer com uma pessoa querida.
Mas de momento, este é só um momento de dor. E outros momentos se seguirão, com tempo e paciência. Escrever sobre o momento de dor poderá ajudar desde que acabemos com uma nota de esperança e de aceitação.
Tal como não somos nós quando temos fome, o mesmo importa dizer em relação à dor. É única, pessoal, mas pode ser sempre partilhada no seu impacto, porque todos passamos por ela e ela também nos ajuda a integrar outras formas de contemplar a vida e os outros que passam por nós, a rever as múltiplas páginas da gratidão, o livro também único que escreverei.
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Maria João Enes

