terça-feira, 29 de outubro de 2019

Manual dos amantes frios

“Não posso escolher como me sinto
Mas posso escolher o que fazer a respeito.”
“Ninguém poderá jamais aperfeiçoar-se,
Se não tiver o mundo como mestre.
A experiência adquire-se com a prática.”
W. Shakespeare


Tinha uma vida modelo. Seguira o plano, trabalhou e casou, teve filhos. A família diria ter arranjado o marido perfeito. A vida corria bem. Até deixar de correr.
Separou-se, viu-se a priorizar quem aliviava a rotina diária, a lida da casa e a educação dos filhos. Apareceu companhia a quem era fácil pedir ajuda, estava ali. Era também com essa pessoa que se divertia, veio a descobrir, achando-se amiúde a sorrir como há muito não se ouvia. Mas não sabia que significado dar aos sentimentos que começara a nutrir por aquela pessoa, que se tornara um ponto de luz.
Fala-se da fé quando por acaso se anda muito longe dela. Não vemos nada ou mesmo que víssemos, a bússola deixou de funcionar.
Outrora, caminhava-se por ruas, casas, pessoas e valores que iluminavam o percurso como amoras frescas por entre as silvas.
“Tens de ter fé” ouve-se. Por vezes, surgem o “Tens de dar tempo” com o “Tens de ter calma” quando parece que já perdemos algo para sempre, que nunca chegamos a lado algum ou que algo nunca mais cessa, com a íntima sensação de que algo já deveria ter mudado.

Para dias de pouco ardor, como preservar o fogo e mantê-lo quente?
Lemos que a vida é uma viagem, para ter esperança no futuro, nos outros, em nós.  Podemos também procurar o momento em que nos vimos pela última vez. Encontrar os nomes, os gestos e os cenários que, então, nos acompanhavam. Visitá-los. Voltar humildemente a essa antecâmara pré-tempestade. Ir com medo e a tremer, ir sem esperança, mas ir. Reconhecer-se nessa memória. Depois até chorar, se nada acontecer de diferente. Foco na respiração. Hoje, inspiro e expiro e isso basta-me.
Tentar voltar, ver dos passos tomados, mãos e sorrisos que nos seguravam.
Aparecer aí, aguardando o que por lá se sentiu ou pressentiu. Deixar-se estar ainda mais um bocadinho e respirar.
Um dia, entra-se em casa e algo acende dentro de nós. Ficamos quentes e surpreendidos. Não sabemos bem o que é esta sensação, mas sabemos que queremos que continue. Afinal, contávamos com mais alguém que não sabíamos lá estar: connosco próprios e a nossa capacidade de cuidar de nós.
E aguardar que esse alguém nos encontre, fechando a porta atrás de si.

Maria João Enes

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Este é um momento de dor

Primeiro reconhecer que este é um momento de dor. Nem mais nem menos. Reconhecer que neste momento, sinto-me muito só neste lugar onde o sofrimento se abate apenas sobre mim.
A dor pode impelir-nos para nos afastarmos dos outros e de nós próprios, porque não nos reconhecemos, desfigurados pela dor e perdidos nela.
Reconhecer que preciso de mim, como minha melhor amiga. A seguir, aproximar-me de cuidados e de mimos; neste momento, toda uma caminhada para sair da dor.
Fazer uma pausa.
Reconhecer o lugar em que nos encontramos para dele poder sair.
E pedir ajuda quando precisamos, estender a mão. Também ajuda escrever sobre ela e pensar o que lhe diríamos se isto estivesse a acontecer com uma pessoa querida.
Mas de momento, este é só um momento de dor. E outros momentos se seguirão, com tempo e paciência. Escrever sobre o momento de dor poderá ajudar desde que acabemos com uma nota de esperança e de aceitação.
Tal como não somos nós quando temos fome, o mesmo importa dizer em relação à dor. É única, pessoal, mas pode ser sempre partilhada no seu impacto, porque todos passamos por ela e ela também nos ajuda a integrar outras formas de contemplar a vida e os outros que passam por nós, a rever as múltiplas páginas da gratidão, o livro também único que escreverei.
Imagem: By Caspar David Friedrich - KwEv_TMiJhn5kA at Google Cultural Institute, zoom level maximum, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=13266070
Maria João Enes

No Louvre


As esculturas incomodam-me. Apreciar uma ou duas é um deleite, muitas mais já algo se coça dentro de mim, fazendo-me desviar o olhar. Até com desdém, por vezes.
Representar partes de corpos, um busto, cabeça, rostos, de pessoas que não nos dizem nada. Quando a vida nos dói, um certo representar da vida soa a falso, plástico.
Sentei-me numa escada ao lado de uma representação com ninfa e um Deus e crianças brincando em torno das duas ou três figuras. As imagens pareciam estar entretidas naquela sua dinâmica, algo de rotina e de improviso de onde desponta o espontâneo. Pareciam dar-se ao olhar, à exposição do meu desejo de ver e observar tudo. Voyeur.
Toda a escultura jogava bem ao Olhem para mim, somos todos bonitos. 
Uma das figuras apanho-a a fitar-me de estuque na minha direção. Continuei a minha ignorância e desdém. Desvio o olhar e outras vidas se colocam ao meu lado a tirar fotografias, também na tentativa de se agarrarem à ilusão de que vão viver para sempre.
Perpassa-me o choque que tudo é vão e tal como eu, outra pessoa se sentará nas escadas, cansada. No mesmo jogo de flirt com a estátua.
O olhar de estuque incomoda-me. Pergunta-me: “Nós somos falsos, mas ficamos séculos e milénios aqui. E tu?”.
Guardo então o tempo, afinco e entrega ao esculpir uma figura. Meses, anos e naquele ritmo, aquela hora, dias de chuva e de sol. Guardo celebrar os outros que passam esta chuva e sol connosco, nos pequenos sorrisos ou olhares. Na relação entre a obra e o escultor, nasce uma ligação, uma presença em que um não existe sem o outro. Guardo esse molde também para a relação connosco. Mesmo se a pedra falhar e houver um ponto fraco, racha. Tentar embelezar ou partir de outro ponto mais atrás e seguro. Cuidemos de nós próprios com essa presença, principalmente quando mais arde, nessas horas mais modestas.

Maria João Enes

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Manual dos amantes tristes


Na encruzilhada deparamo-nos com dois rumos. Respira. Olha para dentro. Respira, de novo e longamente. Uma das possibilidades pode parecer mais fácil aos estímulos, mais breve. Outra mais longa, morosa e, por vezes, com nevoeiro, sem clara imagem do destino.
A satisfação de coisas vãs é mais prazerosa, mas, na realidade, talvez seja em nós próprios que o verdadeiro prazer resida.
Dentro de ti, as respostas não assomam à vista. Respira uma e duas vezes. O assumir de limites, do que de mais verdadeiro encontrares em ti.  Leve o tempo que levar. De noite, quando deitares a cabeça na almofada, tenta desenhar o que encontrares para veres o verdadeiro caminho, em ti. Depois de o veres na folha, espera que as tuas necessidades e desejos possam encontrar o seu meio de chegar à tua vida e aí se conservar.
((publicado originalmente em https://milrazoes.blogs.sapo.pt)

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Flores de cerejeira

Primavera

Debaixo de uma cerejeira
tudo é servido
decorado com flores

Flores de cerejeira no céu escuro
E entre elas a melancolia
quase a florir.

Matsuo Basho

O coração humano pede muitas coisas. Pede a rotina para ter controlo sobre as coisas e confiança para melhor habitar o tempo. Por entre a ramagem dos dias, os sonhos aguardam tímidos. Aqui e ali um raio de sol atravessa as folhas verdes e castanhas. O coração sequioso de esperança, quando as nuvens se acinzentam de chuva, interroga-se sobre o subtil mistério do viver. Pede instantes de alegria para suportar as nuvens de chuva.
Por vezes, o coração pede janelas para arejar e deixar entrar a plenitude do viver na sua efemeridade.
Ao resgatar a vulnerabilidade, abraçar a fraqueza, o quão tudo dói ou se torna demasiado, esquecemos de nos focar no momento. Os sentidos permitem isso, regar melhor as plantas para crescerem fortes. Estender o corpo a notas quentes, como a voz de quem gostamos dizer que nos ama, o frescor da água nos pés ao ritmo das ondas, o som dos passarinhos na lonjura. Este voltar a luz ao que brilha de mais pequeno, à verdade da nossa fisicalidade, permite um encontro connosco no agora e perante tudo o que nos possa assaltar, a certeza do vaivém das ondas. Neste ver o que é invisível, a esperança floresce, ancorada no viver como se estivéssemos enamorados.
No amor, o coração humano regala-se estando em aberto consigo próprio e ao outro. Se entra chuva e vento, granizo, entram também sorrisos e mimos, carinho de toda a espécie pelo espanto que é o encontro com o outro. Como quando banhamos os pés no mar, espantados face à sua beleza e intensidade, felizes por existir.

Maria João Enes

quinta-feira, 14 de março de 2019

Da simplicidade


“Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe”
Pedro Homem de Mello


Um dia, chegando a casa, senti que estava pela primeira vez a entrar num mundo novo. Mesmo que já lá morasse há um ano, aquele espaço não seria pisado por ele e tudo bem, não vinha nenhum mal ao mundo. Como se me encontrasse no agora, com esta nova pessoa que eu sou. Uma paz que assoma por dentro banhando as paredes e lentamente preenchendo até transbordar.
Como respirar quando tudo arde e pesa o ar cá fora?
Séneca, na sua ideia de viver de modo desapegado do prazer e sem medo da dor, não seria a chave do mistério. Há um conforto que nos transmite segurança, confiança, pontos de referências no que é familiar e rotineiro como o primeiro café da manhã.
Andamos na vida por vezes mais perdidos em rotinas e nisto um dos corrimãos desaparece e caímos. Com poff!! e tudo.
Infinitamente rápido é o movimento do tempo, como se vê mais claramente quando se olha para trás. Pois quando estamos atentos ao presente, não o percebemos, tão suave é a passagem do tempo ao ir pelo dia afora.
A linguagem da verdade é simples. Quando nesse encontro mais silencioso nos deparamos a um espelho que não se parte ou distorce, aí aquietemos para ouvir esse ribeiro que murmura há já muito tempo: gosta muito de ti.
 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ruge

“Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
...
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.”
Alberto Caeiro

Um incómodo grande, a falta de barulho. Nem que seja o do rádio ou da televisão. Um aborrecimento ter de nos ouvir, o que por aqui ecoa na tubagem, nas cavernas.
Reparei que fico bastante cheia de mim ao fim de uma viagem de autocarro de 4 horas. Chego ao pé das pessoas e toda eu só quero falar. Expulsar o demónio. Quando não consigo adormecer, ler tem sido um modo de me distrair. Fico pensando se esta parte da canalização interna não range como um cuco à espera de ser notada, se não quer ser ardentemente vista. Mas traz aquele incómodo das paixões, invejas, ciúmes, as fraquezas da gula e do desejo. Traz o ressentimento e o ódio, a competição e a agressividade. A par disso muita fome, várias.

Tenho lido “De olhos fixos no sol” do Irvin Yalom que fala sobre a morte, a construção de significado, o isolamento face ao nosso derradeiro. Conta também o face a face com aquela questão que nos tira o sossego, o do passado já não voltar. Dei conta que ele partilha o momento em que vê o pai ao telefone a receber a notícia que o seu pai morreu. Isso remeteu-me também para a minha história, tal e qual, tirado a papel químico. Vi o meu pai a ir ao telefone, ouvi um som diferente, a mãe passa a correr atrás dele, ambos em direção ao quarto. O som diferente não se altera, agudiza e fica num som permanente.
Eu dirijo-me ainda mais ao meu quarto (se calhar já lá me encontrava), por mais curiosidade que tivesse apercebo-me rapidamente que não ia mesmo querer saber o que causava tamanha desfiguração ao meu pai, tive medo.
Que mais futuro me fará fugir para o meu quarto? O medo maior, penso, é o terror conhecido, não o que há de vir ou o desconhecido, desse não tenho sequer imagem, cores ou sons. Yalom recomenda um exercício, olhar para o passado ano e perguntar-se: estaria disposto a repeti-lo tal e qual? Se notar arrependimentos, algo que não quer que se repita, então, tratar de remover ou mudar isso. Eu gostei deste exercício.
Aconselho o livro, mas com leitura reconfortante, por exemplo, Tolentino Mendonça.

(publicado originalmente no blog Milrazoes...)